Criptomensagens
A sofisticada técnica da criptografia utilizada na segunda guerra mundial serviu de alicerce para a invenção do computador
Data:
2008/08/17
Fonte:
Cruzeiro do Sul
No início de 1942, o engenheiro americano Philip Johnston já estava muito velho para combater na segunda grande guerra. Foi quando estudou um jeito de colaborar com seu país. Philip tinha passado quase toda sua infância em reservas de navajos, vivendo uma espécie de “programa de índio”, pois seu pai era um missionário protestante. E devido à sua “imersão” naquela cultura, era um dos poucos brancos (caucasianos, como gostam os gringos) proficientes na língua navajo. Abrindo um parêntese: no tempo da minha infância, índios eram demonizados pela indústria cinematográfica de Hollywood. Para ela, os peles-vermelhas tinham, entre tantos outros defeitos, o pernicioso hábito de escalpelar caucasianos cabeludos. Os sioux, aqueles que, se não me engano, portavam corte de cabelo tipo cordilheira, eram os mais perigosos. E, para alegria de alguns atuais avós que torciam pelos índios, aquele corte virou moda em determinadas tribos modernas. Enfeitam ocos cheios de vazio existencial. Fechando o parêntese.
Durante qualquer guerra, é fundamental que mensagens sejam codificadas. A criptologia, mais do que em qualquer outra ocasião, teve um papel decisivo na segunda grande guerra. Foi uma notável batalha intelectual na construção e quebra de códigos realizadas por cripto-analistas, em geral matemáticos. E a sofisticada técnica da criptografia utilizada nessa guerra serviu de alicerce para a invenção do computador.
Todavia, no pega-pega de um combate ao vivo, as mensagens eram feitas por rádio e no gogó, com a utilização de linguagens cifradas - uma “criptofonia” - quase sempre reciprocamente desvendada pelos exércitos litigantes. Para dificultar a vida dos inimigos, gírias e palavrões eram muito utilizados. No caso americano, voava “shit” para todo quanto é lado. Nessas horas, alemães e japoneses se valiam de seus ex-estudantes de universidades americanas, conhecedores de inglês e das coisas do baixo calão. Era, portanto, imprescindível para os americanos arranjar outro jeito para dificultar a vida dos cervejeiros e dos comedores de arroz. E é aí que volta à cena Philip Johnston.
O provecto engenheiro teve a idéia de utilizar pares de índios navajos e que também soubessem inglês para, como operadores de rádio, codificar e decodificar mensagens em campos de batalha. O papo deles na troca de mensagens seria indecifrável pelos inimigos porque o idioma navajo não tem ligações com qualquer outra língua européia ou asiática. E, embora a idéia pudesse ser aplicada a outras tribos, os navajos tinham a vantagem de não terem sido pesquisados por “antropólogos” alemães que, antes da guerra, pululavam as reservas indígenas. Estas também viviam cheias de outros “ólogos”, tais como os que hoje abundam na Amazônia.
O fato é que a idéia de Philip foi prontamente aceita por um tenente-coronel responsável pelo setor de mensagens do exército, em San Diego. O militar era uma pessoa resoluta, dessas que não ficam só esperando, mesmo que impávido, o colosso das ordens superiores. Como conseqüência, 29 navajos foram selecionados para um treinamento que incluiu a aprendizagem de um alfabeto fonético especialmente criado para soletrar palavras imprevisíveis e nomes de lugares. Por exemplo, a letra b era soletrada em navajo como “shus” (urso), correspondendo a “bear” (urso, em inglês). Dos 29 navajos selecionados, 28 foram para a guerra e um ficou para treinar novas equipes. Ao todo, até o final da guerra, foram utilizados 420 codificadores daquela tribo.
Mas uma coisa é uma idéia, outra é ela na prática. No começo foi um imbróglio geral. Vários navajos, confundidos com japoneses, foram presos por soldados americanos. Além disso, outros operadores acharam que os japoneses estavam utilizando um novo código - “muito cumpricado”. Depois as coisas se acertaram. E os japoneses é que ficaram atônitos com aquela língua estranha e de muita valia para o sucesso americano. Por isso, a participação dos operadores navajos foi considerada decisiva na tomada da localidade chamada Iwo Jima (retratada numa foto famosa, na qual soldados fincam uma bandeira dos Estados Unidos e que, desconfia-se, foi uma montagem marqueteira).
Entretanto, a façanha criptofonética dos navajos só veio ao conhecimento público em 1968, quando o código utilizado foi retirado da classificação secreta, conforme “O livro dos Códigos”, de Simon Singh, obra que é fonte desta narrativa. Mesmo com a quebra do segredo, os índios continuaram esquecidos e em condições precárias. Só obtiveram um efetivo reconhecimento em 1982, quando o dia 14 de agosto foi batizado (nos Estados Unidos), como o “Dia nacional dos codificadores navajos”.
Hoje, numa espécie de revide ao sofrimento ancestral, muitos navajos utilizam criptomensagens para escalpos bem mais sofisticados. São donos de cassinos.
Adalberto Nascimento é engenheiro e escreve a cada duas semanas neste espaço, sempre aos domingos

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