Lixo
virtual é ameaça
para Internet
Fonte: A Notícia - Joinville, 03/09/2003
ALERTA
Para cientista inglês Phillip Hallam-Baker, as mensagens não-solicitadas,
se não forem detidas, podem em breve inviabilizar a Internet, pois o aumento
de tráfego que originam são a maior ameaça à estabilidade
da rede |
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Criador
dos protocolos de segurança da web
diz que os chamados spams podem paralisar
rede
Em 1992, quando
a Internet era restrita à elite
acadêmica e a poucos sortudos que
usavam os BBS, o cientista inglês
Phillip Hallam-Baker teve o primeiro contato
com Tim Berners-Lee, "pai" da World Wide
Web (WWW). No mesmo ano, conseguiu uma
bolsa de estudos no Centro de Pesquisas
de Partículas Europeu em Genebra
(CERN), berço da interface gráfica
e do programa navegador(browser) Mosaic,
que mudaram a Internet e a transformaram
no que temos hoje. Junto com a equipe do
CERN, Hallam-Baker desenvolveu os protocolos
http e html e se especializou na área
de segurança.
Principal cientista da gigante Verisign,
Hallam-Baker estuda os males causados pelo
spam e pelos DDOS (ataques por negação de serviço) à rede
mundial de computadores. A conclusão não é agradável:
segundo ele, as mensagens não-solicitadas, se não forem detidas,
podem, em breve, matar a Internet. Como deter o perigo? Em visita ao Brasil
a convite da Certisign, ele defendeu, em entrevista, o uso do firewall, e falou
sobre o fim da privacidade.
Em alta
"Há três anos, um spam era
só uma coisa chata. Hoje, é uma
grande ameaça". Vinda de um dos
principais especialistas em segurança
online, essa declaração é no
mínimo preocupante. Phillip Hallam-Baker
engrossa a voz daqueles que, hoje, vêem
no lixo virtual a maior ameaça à estabilidade
da Internet. Ao mesmo tempo, afirma que é essencial
o desenvolvimento, pelos grandes fabricantes,
de plataformas mais seguras de hardware
e software.
Hallam-Baker falou sobre proteção pessoal contra spammers, certificação
digital e o que cada um pode fazer para minimizar os efeitos do "break down" que
vem por aí.
Entrevista / Phillip Hallam-Baker
"Há três anos, as pessoas
achavam o spam 'uma coisa chata'. Hoje,
ele é tratado como ameaça
por organizações de todo
o mundo"
"O único jeito é controlar
o acesso. A maneira que muitas pessoas
encontraram para resolver isso é através
da moderação"
"O interessante do certificado digital é você fazer
uma pessoa ter certeza de que você é quem
diz ser, que tem endereço"
A Comissão de Comércio
Americana (FTC) avisou que o spam pode
matar a Internet. Acredita nisso?
Phillip Hallam-Baker - Se o spam não parar, sim. Um spam é um
saco, dez por hora, um grande incômodo, cem por dia, sinal de problema,
imagine cem por hora! Um amigo recebe meio milhão de spams por dia.
Sua conta de e-mail, nesse ponto, fica completamente imprestável. O
spam gasta muita banda de Internet e pode pará-la, em breve. Há três
anos, as pessoas achavam o spam "uma coisa chata". Hoje, ele é tratado
como ameaça por organizações de todo o mundo.
A que ameaças a web está exposta?
Baker - A primeira geração da web era de pessoas falando com
máquinas: você usava o e-mail e acessava páginas, era só,
não tinha muito problema. Depois surgiram sites com cookies, screensavers,
códigos maliciosos, spams. Agora, computadores falam com computadores,
por isso a segurança precisa ser redobrada.
É possível alguém,
hoje, viver sem um firewall?
Baker - Na área de pesquisa em segurança, principalmente acadêmica,
muitos falam mal do firewall: que os códigos são obscuros e que
ele não funciona. Não concordo. Se você olha plataformas
sérias, vê segurança lá. Prover segurança é crítico.
Em qualquer empresa na América você vê uma mesa com um segurança.
Mas se chegam seis punks com penteado moicano, alfinetes no nariz e metralhadoras,
o guarda vai correr e chamar a polícia. Segurança de permissão é isso. É assim
que o firewall funciona: permitindo ou não a entrada de estranhos. Se
você usa ADSL ou cable modem, precisa de firewall. Ele pode não
impedir todos os acessos, mas impede um bom número. A estrutura do DNS
(Domain Name System, organização que, entre outras coisas, controla
a entrega de e-mails e tem 13 servidores-raiz no mundo, sem os quais a Internet
não funcionaria) recebe mil ataques/dia e efetua 10 bilhões de
transações/dia. São ataques contínuos de fontes
diversas, de 30 a 40 ocorrendo no mesmo momento, o tempo todo. É crítico.
Se a DNS der pau, a Internet dá pau. Se as pessoas usassem firewall,
conseguiriam deter de um a cinco ataques. Se os ataques aumentarem para cem,
no mesmo instante, como controlar?
É como
uma epidemia...
Baker - Exatamente. É como parar infecções de Aids. Se
você fizer com que cada pessoa infecte um número menor de pessoas,
você controla. Um firewall pessoal pode diminuir o número de ataques,
já que ele pode pegar 80% deles.
Até em
blogs existe spam...
Baker - O único jeito é controlar o acesso. Assim você decide
quem pode ou não entrar. O jeito que muitas pessoas encontraram para
resolver isso é através da moderação. O Slashdot
(www.slashdot.org) é uma comunidade grande e pessoas votam nos comentários
mais pertinentes. Isso pode ser feito a uma parte do milhão de blogs
que têm o mesmo tema que o seu. Não seria ótimo agregar
reputação através dos blogs? Pode-se criar um ranking
de posts. Há um tempo eu tinha 50 pontos no Slashdot e tinha reputação
e liberdade para postar. Não seria ótimo ter isso em blogs? Basta
criar sistemas de identificação. Não quero dar minha identificação
a você porque só visito seu blog? OK. Mas se você não
der, pode me mandar spam! Posso ter o direito de escolher se quero ou não
receber certos comentários em meu blog. É assim que se mata o
spam.
Mas isso
não
tira a liberdade da Internet?
Baker - Sim. Mas o passaporte é um limitador também, não?
A possibilidade de identificação, de mostrar quem você é,
muda tudo. Mas é uma escolha. Se estou apenas andando num supermercado
brasileiro, por exemplo, sou só um anônimo. Mas quando vou pagar
a conta e dou meu cartão de crédito significa que alguém
vai pagar a conta. Estou falando de controle de riscos. É impossível
eliminar riscos, mas é possível se proteger.
Quando vocês criaram a web, acreditavam
que ela daria tão certo?
Baker - Sim. Quando tínhamos poucos milhares de usuários eu já estava
convencido da necessidade desse tipo de comunicação. Com ela
o indivíduo ganhou habilidade para se comunicar: se você é um
bom jornalista e tem o argumento certo, pode ter graus de influência
iguais aos de uma organização de mídia inteira. A Internet
naquela época era usada só pela elite científica. Queríamos
democratizá-la, e democratizar a Internet significava torná-la
acessível a pessoas comuns, para que pudessem ler coisas ou comprar
online. Isso exige segurança.
Você conseguia
visualizar como seria a web no futuro?
Baker - Sabíamos que teríamos que trabalhar duro para fazer o
que queríamos. E o tempo na web é mais rápido, não
parece tempo real. Eu trabalho com a web há onze anos. Como as coisas
acontecem muito rápido nela, eu já devia estar aposentado (risos).
Não terminarei meu trabalho nem em vinte anos, devido ao potencial dessa
coisa. Temos muito a criar em segurança, por exemplo. Quando morava
em Genebra, comprava livros numa grande livraria, a Blackwells. Gastava parte
dos meus dias indo lá. Mas ela era em Genebra. Se ela fosse na Inglaterra
eu não teria cerca de mil livros! Com a Amazon, não importa onde
você esteja, pode comprar o livro que quiser. Isso não aconteceria
se você não tivesse confiança. Era esse meu desafio ao
desenvolver minha parte da web: colocar segurança dentro dela.
O usuário
comum precisa de um certificado digital?
Baker - O interessante do certificado
digital é você fazer uma
pessoa ter certeza de que você é quem diz ser, que tem endereço, é legalizado.
Ajuda a controlar riscos. O usuário comum ainda não precisa.
Deveria ter, se pudesse e quisesse? Claro.
Mecanismos
de buscas concentram muitas informações. Deve-se temê-los?
Baker - Agregar informações é perigoso, não só no
Google. A questão é dar ao dono da informação o
controle sobre ela. Privacidade é uma das coisas mais importantes na
era da informação. Um exemplo: me inscrevi para uma conferência
e os organizadores colocaram online meu telefone de casa e meu endereço. É preciso
controlar informações pessoais. O Google só expõe
o problema. Alguém lendo minha conta bancária? É mau.
Mudando minha conta bancária? É pior. O problema da privacidade é o
próximo estágio. Onde vai parar? Controlar troca de informações é difícil,
porque micros não são confiáveis e o hardware é parte
do controle. As próximas gerações de micros serão
assim: seu hardware poderá conversar com o meu e dizer que aplicação é confidencial.
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